Características de alguem com autismo

            
   

SOFTWARE RACHAKUKA: definindo uma tecnologia assistiva para o ensino especial

SOFTWARE RACHAKUKA: definindo uma tecnologia assistiva para
deficientes mentais
Indymar Oliveira
Elaine Soeira
Instituto Federal da Bahia, Campus Camaçari/ NAE Dias D’Ávila
1. Introdução
Dentre as políticas educacionais do Ministério da Educação e Cultura (MEC)
aquelas voltadas para a inclusão de pessoas com necessidades educativas especiais
(PNEE) têm grande destaque, pois, conforme a Declaração de Salamanca (1994) e a
Convenção da Guatemala (1999), das quais o Brasil é signatário, os sistemas
educacionais devem definir e implementar programas educacionais considerando a
diversidade humana a fim de extinguir qualquer tipo de preconceito e discriminação.
Em atendimento às políticas do MEC, têm sido desenvolvidas diversas tecnologias
assistivas que contribuem tanto para melhorar a qualidade de vida das pessoas, quanto
para incluí-las, neste sentido, justifica-se o estudo apresentado aqui. Propõe-se um
estudo acerca da utilização do software educativo RACHAKUKA, como tecnologia
assistiva para pessoas deficientes intelectivas, em situações formais de ensinoaprendizagem.
2. Referencial Teórico
Vivemos num mundo mediado pelas tecnologias que, cada vez mais se especializam
para atender as demandas das pessoas. Entretanto, a partir da implantação das políticas
públicas de acessibilidade voltadas para a inclusão de pessoas deficientes e com
necessidades educativas especiais, o conceito de tecnologias assistivas começou a se tornar
conhecido em larga escala.
Conforme a ISO 9999 (apud INSTITUTO DE TECNOLOGIA SOCIAL, 2008, p.
26) as tecnologias assistivas, também conhecidas como ajudas técnicas, como
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[...] qualquer produto, instrumento, estratégia, serviço e prática, utilizado por
pessoas com deficiência e pessoas idosas, especialmente produzido ou
geralmente disponível para prevenir, compensar, aliviar ou neutralizar uma
deficiência, incapacidade ou desvantagem e melhorar a autonomia e a
qualidade de vida dos indivíduos.
Com base em diversos documentos internacionais, o Comitê de Ajudas Técnicas
vinculado à Secretaria Especial dos Direitos Humanos da Presidência da República, definiu
o conceito brasileiro para tecnologias assistivas, resguardando a essência do proposto pela
ISSO 9999. No Brasil, tecnologia assistiva é compreendida como
[...] uma área do conhecimento, de característica interdisciplinar, que engloba
produtos, recursos, metodologias, estratégias, práticas e serviços que
objetivam promover a funcionalidade, relacionada à atividade e participação,
de pessoas com deficiência, incapacidades ou mobilidade reduzida, visando
sua autonomia, independência, qualidade de vida e inclusão social. (CORDE
– Comitê de Ajudas Técnicas – ATA VII, apud BERSCH, 2008, p. 4)
A importância destas tecnologias é incalculável, pois significa, para o PNEE, a
possibilidade de resgatar ou conquistar sua autonomia e auto-estima, contribuindo de forma
positiva para o seu pleno restabelecimento. A cerca desta importância, Santarosa (1997,
apud INSTITUTO DE TECNOLOGIA SOCIAL, 2008, p. 29) afirma que
A importância que assumem essas tecnologias no âmbito da Educação
Especial já vem sendo destacada como a parte da educação que mais está e
estará sendo afetada pelos avanços e aplicações que vêm ocorrendo nessa
área para atender necessidades específicas, face às limitações de pessoas no
âmbito mental, físico-sensorial e motoras com repercussão nas dimensões
sócio-afetivas.
No caso específico deste estudo, para dar continuidade à proposta inicial do
RACHAKUKA, decidiu-se trabalhar com pessoas com deficiência mental, abordada à luz
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do conceito oficial apresentado no Decreto nº 5296/2004. Conforme tal documento,
deficiência mental1 corresponde a um
[...] funcionamento intelectual significativamente inferior à média, com
manifestação antes dos dezoito anos e limitações associadas a duas ou mais
áreas de habilidades adaptativas, tais como: comunicação; cuidado pessoal;
habilidades sociais; utilização dos recursos da comunidade; saúde e
segurança; habilidades acadêmicas; lazer e trabalho. (Capítulo II, Artigo 5º, §
1º, Inciso I, Alínea d)
A intervenção educativa com o RACHAKUKA possibilitará a experimentação de
uma tecnologia assistiva capaz de considerar especificidades de funcionamento intelectual
de cada indivíduo, o que vai desencadear processos de aprendizagem diferenciados.
Pensando nos indivíduos com limitações cognitivas, foram criadas as bases para o
desenvolvimento de um software que atendesse três realidades básicas: avaliar a evolução
cognitiva de uma pessoa portadora de necessidades educativas especiais; ajudar na terapia
de recuperação; aproximar a informática a uma parcela da população que, não tem acesso a
tecnologias modernas.
O RACHAKUKA é um sistema que utiliza procedimentos de multimídia, realidade
virtual, processamento de imagem e algoritmos de inteligência artificial, para construção da
arquitetura do sistema que reúnam condições para: repetibilidade continuada, controle do
estímulo que esta sendo realizado, introdução do PNEE no mundo da informática;
dimensionamento as suas dificuldades e limitações; estímulo às áreas específicas do cérebro
para recuperação de lesões e também na observação contínua do seu processo emocional,
na tentativa de determinar, quais seriam as suas necessidades, e como devem ser
trabalhadas às informações e sua cognição para servir de base para seu desenvolvimento. O
RACHAKUKA é, principalmente, um software que trabalha com um banco de dados de
CASES, para a utilização desses, numa sistemática de desenvolvimento de cortes e de
transformação em jogos de memória associativa. Além de administrar um banco de dados
1 Atualmente a deficiência mental tem sido definida como deficiência intelectiva, devido a um
entendimento de que há um déficit no funcionamento intelectual, quando comparado com o padrão de
funcionamento considerado “normal”. No entanto, optou-se por utilizar a terminologia oficial, para
assegurar o disposto na legislação.
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de CASES, o software gerencia um banco inteligente, visto que armazena estas imagens,
questionamentos, entre outros, definidos a partir do seu grau de dificuldade, da faixa etária
do usuário, do seu grau de abstração e compreensão.
Aprofundando a discussão, o trabalho com o software precisa estar voltado para um
objetivo maior que é a aprendizagem. Aqui a concepção de aprendizagem é abordada na
perspectiva de GAGNÉ (2006), a qual é entendida como algo bastante complexo que vai
além de resultados observáveis, pois dela subjaz um processo muito difícil de captar e
perceber, sendo necessário um olhar minucioso sobre o mesmo, a fim de identificar se está
ocorrendo a aquisição dos processos cognitivos que asseguram a aprendizagem ou a
simples memorização de informações e procedimentos.
Mesmo com tantos estudos sobre a aprendizagem, a produção e a disponibilidade de
softwares especializados, que ajudem a tratar e estimular a capacidade cognitiva de pessoas
portadoras de necessidades educacionais especiais vem diminuindo gradativamente,
atingindo até o segmento de jogos educacionais. Além disso, muitos dos produtos
oferecidos no mercado, normalmente, têm um tratamento puramente comercial, carecendo
de uma formalização do seu contexto de desenvolvimento e de análise estruturada,
provocando o afastamento da sua finalidade principal, ou seja, trabalhar com o processo
cognitivo e sua estimulação constante (CARRAHER, 2004), (FIALHO, 2001).
O uso de softwares bem projetados e adequados às peculiaridades de cada usuário
contribui significativamente para a aprendizagem, além possibilitar ao professor a aplicação
de recursos diferenciados para auxiliar os estudantes na construção do conhecimento, além
de tornar as aulas mais interativas e significativas. Valente (1999) defende o que
a informática na educação [...] enfatiza o fato de o professor da disciplina
curricular ter conhecimento sobre os potenciais educacionais do computador
e ser capaz de alternar adequadamente atividades tradicionais de ensino
aprendizagem e atividades que usam o computador. (p. 12)
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Outro ponto a destacar é que a eficácia do software está atrelada à projeção de uma
seqüência bem planejada para a apresentação do conteúdo, subdividida em pequenas doses
e permeado de atividades que exijam uma resposta ativa e padronizada em cada etapa,
proporcionando avaliação imediata desta resposta juntamente com atividades de reforço (ou
feedback). Espera-se com isto conduzir o aprendiz a um objetivo previamente determinado.
Seus proponentes apontam como uma das principais vantagens a promoção de um ritmo
próprio para a aprendizagem dos conteúdos.
Diante do exposto, este estudo visa a validação deste software como ferramenta
eficaz para fomentar a inclusão de pessoas com deficiência mental, de forma lúdica,
sistematizada, visando otimização de seus processos de aprendizagem, a partir da interação
com a tecnologia, com o educador e com os pesquisadores.
3. Metodologia
O software RACHAKUKA foi validado com resultados satisfatórios2, ao ser
utilizado com crianças e adolescentes com Síndrome de Down, na faixa etária de 6 (seis)
aos 12 (doze) anos, no período de fevereiro de 2005 a março de 2006, em uma clínica
especializada.
O estudo atual pretende avançar para outras possibilidades de uso do
RACHAKUKA como suporte para a educação de pessoas com deficiência intelectiva, não
apenas os sindrômicos de Down, incluídos em ambientes formais de escolarização. Para
tanto, a experiência será desenvolvida em duas instituições educacionais, uma privada e
outra pública, a fim de identificar outras categorias de análise dos resultados obtidos que
ajudarão na formulação de uma proposta de intervenção mais consistente.
2 O primeiro estudo experimental realizado com o software está disponível em ftc.br/index.php?option=com_docman&task=doc_download&gid=73&Itemid=15> Acesso em 28 jun.
2009.
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Pretende-se levar em consideração, além da qualidade da interação educador/
pesquisadores-educando no momento das intervenções com o software, outros fatores de
natureza sócio-afetiva que interferem no processo de aprendizagem. Neste estudo, propõese
a formação dos educadores das instituições pesquisadas no que tange ao uso de
tecnologias assistivas na educação inclusiva, contemplando o conhecimento sobre o
software RACHAKUKA.
As etapas previstas para o desenvolvimento do estudo são: seleção das instituições
participantes; seleção dos sujeitos participantes (estudantes e docentes); elaboração do
programa de formação continuada para os educadores; formação dos educadores; vivência
experimental com os estudantes; validação do software RACHAKUKA; confecção de
portfólio de acompanhamento (registros escritos e audiovisuais) elaboração de relatórios
parciais e final.
Considerações Finais
Frente ao que foi exposto, o presente estudo fomentará uma ampla discussão
acerca das políticas de inclusão e do incentivo e financiamento para o desenvolvimento
de tecnologias assistivas para as pessoas com deficiência mental, visto que a maioria das
tecnologias disponíveis está a serviço de pessoas com deficiência física, surdez,
cegueira, contemplando uma parcela mínima de doentes mentais quando esta aparece
associada a comprometimento físico, auditivo e/ou visual. Desse modo, aqueles que têm
um funcionamento cognitivo diferenciado, freqüentemente, é colocado à margem, até
porque são considerados como pessoas incapazes de aprender e tal deficiência é
relacionada com patologias de cunho psiquiátrico, o que dificulta sua inclusão em
ambientes formais de ensino e de trabalho. Diante disso, entendemos que o
RACHAKUKA pode contribuir com a reestruturação cognitiva dos indivíduos,
possibilitando a sua verdadeira inclusão.
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Referências
BERSCHI, R. Introdução à Tecnologia Assistiva. CEDI - Centro Especializado em
Desenvolvimento Infantil. Porto Alegre, 2008.
BRASIL. Decreto nº 5.296, de 2 de dezembro de 2004
CARRAHER, T. N. (Org.). Aprender Pensando. Edição Revisada. Petrópolis - RJ, Brasil:
Vozes,
2004.
FIALHO, F. A. P. Ciências da Cognição. Florianópolis, SC - Brasil: Insular, 2001.
GAGNÉ, R. Les principes fundamentaux de l´apprentissage. 4. ed. revisada. Montréal:
Éditions HRWLtée, 2006.
INSTITUTO DE TECNOLOGIA SOCIAL e MICROSOFT EDUCAÇÃO. Tecnologia
Assistiva nas Escolas: Recursos básicos de acessibilidade sócio-digital para pessoas
com deficiência. 2008
http://www.assistiva.org.br/sites/default/files/TecnoAssistiva.pdf Acesso em 28 jun.
2009.
VALENTE, J. A. O computador na sociedade do conhecimento. Campinas:
UNICAMP/NIED, 1999. Disponible em: /textos/proinfo/livro02-jose%20Valente%20et%20alii.pdf>. Acesso em 28 jun. 2009.
 

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